sábado, 19 de dezembro de 2015

O SEQUESTRO EMOCIONAL

Você já foi sequestrado alguma vez?


O sequestro quando ocorre deixa rastros, uma situação lastimável que irá perdurar por muito tempo. Isso porque, não temos domínio sobre a situação e ficamos a mercê do sequestrador, nosso algoz, e, a cada vez que a memória é reconstruída, junto vem a carga emocional negativa. Confusos, expostos, no escuro e sem visão, nos sentimos desordenados, perdemos inclusive a noção do tempo que passa, mas a percepção é como se fosse uma eternidade. Um ato traumático que sequer queremos recordar, preferimos esquece-lo. 

O sequestro ao qual me refiro não é aquele em que um bandido nos aborda e, em seguida faz contato com a nossa família em busca de uma recompensa. Esse não é tão frequente se comparado com o sequestro que nos torna reféns quase todos os dias. Trata-se de um sequestro que tem como vilão principal a emoção. É muito mais frequente do que possamos imaginar. Tornamo-nos reféns e ficamos entregues a própria sorte. 

O cárcere das emoções não poupa ricos, pobres, inteligentes, famosos, não importa, sem domínio de nossas emoções, é muito fácil sermos apanhados de surpresa e sequestrados.

Segundo o neurocientista Antônio Damásio, a emoção é um conjunto complexo de reações químicas e neurais, formando um padrão. Podendo ser consciente ou mesmo inconsciente. Freud dizia que na maioria das vezes as emoções são inconscientes. 

Todo o processo que dispara uma emoção é biologicamente determinado, dependente de mecanismos cerebrais estabelecidos e inatos. Ou seja, já nascemos com toda essa arquitetura programada para disparar assim que um sinal de perigo for detectado. O teatro onde a peça se desenrolar é o próprio corpo. 

Emoção não é mesma coisa que sentimento. Enquanto a emoção pode ser publica ou privada, o sentimento é uma experiência mental privada. O que as pessoas detectam em nós, são as nossas emoções, mas os sentimentos, somente nós mesmos temos acesso. A não ser que os descrevamos para outros, mas ainda assim, não terá a mesma fidelidade na transdução.

As emoções primárias são: alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa ou ainda a repugnância. A partir destas emoções, centenas de outras são manifestadas, elas são chamadas pelos teóricos de emoções secundárias. 

Uma emoção pode ser disparada por uma música, uma atitude percebida, uma lembrança, uma cena observada, entre outros. Se for uma emoção positiva, certamente iremos nos agradar, mas sendo uma emoção negativa, varias perturbações são desencadeadas, muitas deles nem são percebidas. De repente nos damos conta de que acabamos de mal tratar um amigo, um parente, um desconhecido, e somente após algum tempo, é que nos perguntamos: por que eu tomei aquela atitude tão grosseira? A resposta está em uma complexa rede neural, e, sem que tenhamos a consciência, essa estrutura se antecipa e dispara a emoção que pode concretizar uma ação em sequência. A amígdala cortical.

A amígdala cortical não é a única a fazer parte da complexa rede neural envolvida com a emoção. O sistema límbico e diversas estruturas têm cada uma sua cota de participação quanto o assunto é emoção. Mas a amígdala cortical é especialista nas questões emocionais.
 
Segundo o psicólogo Joseph LeDoux, o primeiro pesquisador a desvendar o importante papel da amígdala no cérebro emocional, ele nos diz: “a vida sem amígdala não tem o menor significado do ponto de vista emocional”. Animais que têm a amígdala cortical cirurgicamente removida, não sentem medo, não tem raiva. Em seres humanos nem lágrimas são possíveis para expressarmos nosso sofrimento sem a amígdala.

A emoção é um fantástico mecanismo que nos avisa e nos livra dos perigos. Um barulho percebido por nossos ancestrais em uma mata poderia livrá-los de um predador. Mas também pode nos colocar em risco quando não bem administrada. Na vida hodierna, frente a um assalto, a reação seria algo bem natural, mas de altíssimo risco.

Mesmo não tendo o total controle sobre nossas emoções, isso não significa dizer que não tenhamos o controle de nossas ações. Uma vez disparada a emoção, é possível sim, controlar nossos atos seguintes frente ao perigo real ou imaginado, criado pelo cérebro. Vale ressaltar, que esse controle só é possível através de um treinamento continuo e que deve ser aprimorado a cada dia. Podemos sentir a emoção, mas decidimos agir ou não frente ao perigo ou a ameaça percebida.